Dois futebóis
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Esperei largos anos por este dia porque, entre outros motivos, para concretizar este sonho convém ter... um filho.
Depois de concretizada essa condição fundamental, há que esperar que ele tenha idade para ir à bola - no nosso país são os 4 anos de idade. Como isso não me pareceu fundamental, apontei para um jogo calminho e ignorei alegremente este ponto, na ânsia de viver aquele momento o mais depressa possível.
Hoje olho para trás e sei que foi demasiado cedo, ele ainda não sabia o que era o futebol (tive oportunidade de escrever aqui sobre isso na altura) mas, para vos ser absolutamente sincero, quero lá saber!!! Não me arrependo de nada e jamais esquecerei aquele dia mágico.
Não sei o que pensam os outros pais-adeptos mas para mim há claramente um futebol antes da paternidade e um outro depois. Para mal dos nossos leitores o futebol passou a ser para mim completamente diferente e muito mais irrelevante desde então e isso reflecte-se nos temas que aqui abordo e na forma como o faço. Há dias em que, as coisas do futebol me parecem tão sem significado e tão estúpidas que me pergunto "porquê perder tempo a escrever sobre isto"?
Mas se um filho nos traz esta lucidez quanto à hierarquização do futebol no quadro das nossas importâncias pessoais, traz-nos também a maravilha que é podermos desfrutar com ele da magia única do futebol: pedir duas bifanas em vez de uma, guiá-lo pelo meio da multidão com a camisola oficial vestida, durante o aquecimento ouvir "Pai, olha o Luisão", acompanharmos a plenos pulmões o Piçarra no hino enquanto a equipa entra com as camisolas berrantes, aplaudirmos de pé a substituição do Aimar, explicar-lhe da bancada as regras do jogo, as veias aos pulos no pescoço pequenino enquanto grita, de braço esticado no ar para ter a certeza que a bancada oposta o ouve: Benfiiiiica! e depois o brilho nos olhos enquanto aguarda a resposta.
Todas as vezes tão especiais como a primeira. Sem preço.
P.S. - Tomei conhecimento desta reportagem quando a mesma foi publicada pelo grande Pedro Ribeiro no seu blogue. Obrigado por mais esta pérola.


